Páginas

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Amigo de homem que tentou tirar a vida de Bolsonaro revela detalhes de seu passado.


Adélio Bispo de Oliveira, o homem que tentou tirar a vida de Jair Bolsonaro (PSL) no dia 6 de setembro e disse que agiu "a mando de Deus", apegou-se com fervor à fé evangélica no fim dos anos 1990, quando se mudou para Uberaba, região do Triângulo Mineiro. 








Tinha pouco mais de 20 anos e sobrevivia vendendo livros. Como o dinheiro era escasso, decidiu buscar ajuda na Igreja da Fé e foi recebido pelo então líder da instituição, o pastor Romildo Cândido. Foi sob a tutela dele que o jovem iniciou a vida religiosa. 


Em entrevista ao UOL, Romildo contou que Adélio já demonstrava à época obsessão pela política e que aparentava ser um rapaz "idealista", porém "confuso" e "revoltado". Hoje à frente da Igreja Voz dos Mártires, com sede em Uberaba, o líder evangélico disse ter ficado surpreso com a notícia do ataque.
"Ele sempre foi zeloso pela Bíblia e pelas coisas de Deus. E falar que foi Deus que mandou [cometer o crime]? Eu até comentei com a minha esposa: a cabeça dele não estava boa mesmo. Acho que ele não está bem." 


Dedicado, Adélio tornou-se obreiro (uma espécie de auxiliar do pastor) nos primeiros meses de 1998 e, um ano depois, viajou a São Paulo junto a Romildo para se consagrar evangelista (pessoa designada a disseminar o evangelho e fazer pregações no templo e em espaços públicos).
Nos anos seguintes, relatou o ex-líder da Igreja da Fé, Adélio viajou à sua cidade natal, Montes Claros (MG), onde teria sido consagrado pastor em uma igreja missionária. A reportagem não localizou a instituição.
Segundo Romildo, ao longo dos anos, Adélio passou por vários municípios e não se fixou em uma denominação evangélica. "Ele sumia. Uma hora ele estava em Santa Catarina, outra hora em Uberaba e, depois, voltava a Montes Claros", disse. 


A versão bate com os relatos dos familiares do agressor de Bolsonaro. À "Folha de S.Paulo", um dia após o ataque ao candidato a presidente, parentes mais próximos contaram que ele virou um andarilho aos 17 anos, quando deixou a casa da família em Montes Claros e foi a São Paulo buscar emprego. Além de cidades em Minas, também passou por Florianópolis e Balneário Camboriú (SC).
Entre idas e vindas a Uberaba, Adélio chegou a morar na casa de Romildo por "sete ou oito meses", entre 2006 e 2007. "Desde que o conheci, em 98, sempre tivemos um vínculo como amigos. Teve uma época que ele não tinha onde morar e ficou na minha casa. Eu o ajudei muito, ele era um cara idealista e que tinha uma visão política como poucos brasileiros. Só que era de esquerda", declarou o pastor. 


No ambiente da igreja, Adélio era visto como uma pessoa misteriosa e que falava pouco sobre si. Não tinha namorada, costumava dizer que "não queria arrumar filho para deixar sofrendo na terra", de acordo com o relato de Romildo. Também não comentava as viagens que fazia. Seu único assunto de interesse era a política.
Identificado com as bandeiras de esquerda, Adélio se filiou ao PSOL em maio de 2007. Segundo Romildo, que quatro meses depois também entrou para a agremiação, o pupilo sonhava ser candidato a deputado. O registro do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) mostra que os dois ingressaram na sigla no mesmo ano.
Apesar de correligionário, o pastor afirmou reconhecer que não tinha a mesma firmeza ideológica de Adélio e chegou a recomendar que ele pleiteasse uma candidatura por partidos de direita. "Um dia eu disse para ele que, já que ele queria mesmo ser candidato, que buscasse a direita, talvez o PSDB ou o MDB. Aí ele disse: 'com esse povo, não'. O negócio dele era realmente o PSOL, o PSTU. Ele foi criando uma aversão à direita. Sempre foi da mesma forma.".
Além de Romildo, a cunhada de Adélio, Maria Inês Dias Fernandes, 48, disse, em entrevista à Folha, que ele havia compartilhado o desejo de se eleger deputado para poder "trabalhar em várias cidades". Na versão do pastor, Adélio chegou a cogitar uma candidatura pelo PSOL, mas teria ficado frustrado porque a legenda supostamente decidiu lançar outro nome. Ele deixou o partido em 2014.
O UOL procurou a assessoria do PSOL, que informou que não há qualquer registro de pedido de candidatura em nome do ex-filiado. O líder psolista em Uberaba, José Eustáquio dos Reis, declarou que ele pouco participava das reuniões da militância. "O contato era muito pouco com ele. Ele sempre estava trabalhando fora [do município]. A gente só o encontrava às vezes, na rua."
Romildo contou que um dos empregos de Adélio em Uberaba foi na antiga fábrica da Skala, uma empresa de cosméticos que faliu nos anos 2000 e cujo terreno ficou abandonado na cidade. "Na época, o dono deu cano em todo mundo. Fizeram movimentação, protesto, foram para a porta do fórum. E ele que era uma liderança, por isso foi muitas vezes ameaçado", relatou.
Assim como o pastor, José Eustáquio dos Reis também observou que Adélio era "uma pessoa atuante em manifestações" e que tinha um perfil "corajoso". "Era um cara que falava diretamente com alguns políticos do município. A gente sabia que ele ia à Câmara para travar debates e se envolver em manifestações. Tinha o pensamento dele e uma forma de agir", destacou o psolista.
Diretor do Stiquifar (Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Álcool, Plásticos, Cosméticos, Fertilizantes, Químicas e Farmacêuticas de Uberaba e Região), Alan José confirmou que, à época da falência da Skala, vários protestos foram realizados em favor dos direitos dos trabalhadores prejudicados. Ele disse, no entanto, que não se recorda de Adélio.
"Tivemos uma negociação muito difícil. A empresa [Skala] quebrou literalmente. Fizeram um acordo judicial, e os trabalhadores receberam 75% do que era devido", esclareceu. A reportagem tentou localizar os atuais donos da empresa de cosméticas, mas não houve resposta. Uma funcionária da Secretaria Municipal de Finanças disse que o terreno da antiga fábrica continua abandonado.
A principal linha de investigação da Polícia Federal é que Adélio agiu sozinho ao atacar o candidato Jair Bolsonaro durante atividade de campanha em Juiz de Fora, segundo apurou o UOL. A motivação foi a discordância de posicionamento político em relação ao presidenciável. 


No dia 7 de setembro, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann (PPS-PE), havia dito que outros dois suspeitos de envolvimento no crime eram investigados. Um deles seria um homem que prestou depoimento na madrugada de sexta e foi liberado. No entanto, não há por enquanto elementos suficientes que corroborem essa tese. 

Informações e imagens: UOL
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário :

Postar um comentário