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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Beijar até a boca ficar doendo" Adolescentes de 11 anos fazem encontro em parque com drogas e bebidas alcoólicas


Imagem de reprodução
Michele, que beijou Luan, que beijou Samira, Julia e Priscila. Priscila beijou Danilo. Danilo quis beijar Bianca, mas ela não. Para Luka e Pedro, Bianca também disse não.

Por três minutos e 47 segundos, David beijou Ricky. Depois voltou para a roda de amigos, e Ricky seguiu seu caminho. Vinicius beijou 17, Rafael beijou 25, Juh só beijou uma e Witor não estava ali para beijar ninguém, mas para cuidar de três amigas.



Nas tardes de domingo na marquise do parque Ibirapuera, a graça é "beijar até a boca ficar doendo", como avisa numa rede social a convocatória do encontro marcado para este domingo (5).
O post decreta: "PROIBIDO: brigas, sair sem beijar, sair sem ficar doidão e gente homofóbica. LIBERADO: narguilhe, bebida alcoólica (tomem cuidado com os guardas), beijar na boca".
Os primeiros domingos do mês costumam reunir até 20 mil adolescentes, a maioria entre 14 e 18 anos, embora as idades variem de 11 a 28.
Alguns dormem no parque, outros chegam pela manhã. Os encontros costumam começar às 13h ou 14h e pegam fogo a partir das 16h.
"Narguilhe" é um dos nomes para narguilé, cachimbo de origem oriental que eles trazem em maletas de madeira ou metal. Vários não tragam, mas gostam do objeto porque é de uso coletivo.
"É para não ficar sem fazer nada", diz Fabio, 16, enquanto o carvão queima o fumo com essência de abacaxi (há outros sabores, como menta, morango, café ou caramelo).
Juliana, 22, também carrega o seu. "Minha mãe não deixa usar o dos outros, porque alguns batizam com bebida na água ou com maconha."
Cheiro da erva é esporádico nos cerca de 8.000 m² (o mesmo que quatro vãos livres do Masp) sob a estrutura projetada por Oscar Niemeyer. Disseminado é o álcool, geralmente vinho de marcas baratas, catuaba ou askov (aperitivo à base de vodca).
Uma parte é vendida ali, por ambulantes clandestinos. Em meia hora, aFolha testemunhou a compra de oito garrafas, por de R$ 10 a R$ 25. Abordada, a vendedora não quis dar entrevista.
Cerca de 20 vigilantes do parque percorrem a marquise confiscando garrafas de vidro. Eles dizem recolher mais de 3.000 por domingo. Ainda assim, muitas escapam e algumas se quebram. Quem consegue passa o líquido para vasilhames de plástico.
A bebida é combustível para dançar -funk, hip-hop, break- e beijar -meninos, meninas, conhecidos e desconhecidos- até os portões fecharem, às 24h. Ou antes que saia o último ônibus de volta para casa, que chegam a ficar a até 25 km do parque —em Guaianases, Parelheiros ou Itapecerica da Serra, para citar três regiões diferentes.
No domingo em que a Folha acompanhou o encontro pelo menos dois garotos em coma foram levados por uma ambulância da empresa Remocenter. A primeira viagem foi às 15h30.
Já foi pior. Em 2013, chegavam a 20 os casos de coma alcoólico aos domingos nos arredores do MAM (Museu de Arte Moderna). O museu decidiu agir e criou um programa voltado aos rolezeiros.
"Nossa preocupação não era fiscalizar nem reprimir o que eles faziam, mas fomentar um espaço de todos para todos, com mais segurança", diz Daina Leyton, 37, coordenadora do setor educativo e de acessibilidade do MAM.
Na marquise, a música do momento é o funk "Deu Onda" (também conhecido como "Meu Pau te Ama"), de MC G15, cujos versos todos cantam em voz alta: "Eu não preciso mais beber/nem fumar maconha/que a sua presença me deu onda/o seu sorriso me dá onda".

Informações: Folha de São Paulo
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